DIA DE CHUVA

(Milonga)

Sapecada da Canção Nativa

Dia de chuva foi feito

Pra aproveitar seus vagares,

Sair achando os perdidos

Ou então trocar seus lugares.

Pra ficar cheio de planos,

Com a idéia bem regalona,

Sentado à beira do fogo

Ouvindo o chio da cambona.

 

Dia de chuva foi feito

Para engraxar os arreios,

Tirar os dentes da faca,

Coçar o lombo no esteio.

Pra ouvir o ronco da enchente

Lá nas barrancas do passo,

Olhar pra o tempo assobiando,

Passando um tento no laço.

 

Dia de chuva foi feito

Pra um mundo novo inventar

E falquejar este invento

Pra ver o dia passar...

Dia de arroz com galinha

Bem gordo e feito na hora,

Só pra saber quem resmunga

Se é a rapa ou o tempo lá fora.

 

Dia de chuva foi feito

Pra descansar das canseiras,

Contar as ripas da casa,

Sestear ouvindo as goteiras.

Com a china embaixo do poncho

Sentir-se despeonado,

Chuliando a boca da noite

Pra levantar aluado.

 

Dia de chuva foi feito

Pra comer “bolinho frito”,

Botar as vacas mais cedo,

Contar uns causos antigos.

Sair fazendo sinuelo

Dessas lembranças atoas,

Ouvindo o ronco das sangas,

Branqueando, longe, as lagoas.

 

Motivação

“Cada dia é dia treze! Cada noite é sexta-feira! Putcha... que a vida é arengueira quando empeça a dar de corte! Me sobe o sangue ao pescoço! E eu cuspo um frango bem grosso na cara do Vento Norte...” Se da forma mais humorada o eterno Aureliano de Figueiredo Pinto cospe “um frango bem grosso na cara do vento norte” ...Com outro tipo de humor, movido pela ternura nos sentimentos, Edilberto Teixeira nos apresenta neste Dia de Chuva, os encantos melancolicamente doces daqueles dias “pra levantar aluado”. Estas experiências artísticas trazidas ao palco da Sapecada nos mostram de forma cabal, a universalidade dos acontecimentos existenciais, que quando transformada em Cultura, pela ação do poeta, tornam-se dizíveis, as coisas e os eventos da alma humana.

AUTOR(ES) DA LETRA:

Edilberto Teixeira
São Gabriel, RS

AUTOR(ES) DA MÚSICA:

André Teixeira
São Gabriel, RS

FICHA DE PALCO


João Marcos Negrinho Martins - Violão aço

Pedro Terra - Contrabaixo

André Teixeira - Intérprete e guitarrón

João Paulo Deckert - Bandoneon

Riccieri Paludo - Violoncelo

Israel Dutra - Violino