O FRIO QUE NOS ABRIGA

(MILONGA)

Sapecada da Canção Nativa

O FRIO QUE NOS ABRIGA

                              

I

Há um gurizito que chegou de fora,

que a mãe envolve num ponchito gris,

encarangado, treme o queixo e diz:

-Mãe, o gateado tá esperando a boia.

-Debulho um milho e já volto já,

antes que o dia se me vá embora.

 

                               II

Há um outro piá que levantou com os galos

e se enfurnou na cerração fechada.

Punhais de gelo, pés sentindo a geada,

procura vultos pra encontrar cavalos.

Enfrena, salta, se abraça ao pescoço

e se agasalha com o calor do baio.

 

                               III

Num fim de junho, de adoçar laranjas,

há que cruzar um gado no arroio.

De poncho fino que encharcou as franjas

e voz gelada pra gritar o aboio,

outro guri vem levantando um mouro

que nada, bufa e arregala o olho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                               IV

O frio é um velho cruzador de campo,

o frio é um velho alambrador de mundo.

Cercou o tempo e o parou, profundo,

na nossa alma, onde neva tanto.

O Sul e o Frio, são hora e segundo

de algum ponteiro que perdeu o tranco.

 

                               V

Ficou marcado esse rigor antigo,

tocando o rosto e coração da gente

e por mais frio a alma será quente,

como a lembrança do melhor amigo.

Por onde eu ande, Velho Continente,

tua pele fria me dará abrigo.

 

 

 

 

AUTOR(ES) DA LETRA:

Sérgio Carvalho Pereira
Rio Grande, RS

AUTOR(ES) DA MÚSICA:

João Luiz Nolte Martins Joca Martins
Faxinal do Soturno, RS
Luciano Reis Fagundes
Sapucaia do Sul, RS