O FRIO QUE NOS ABRIGA

(MILONGA)

Sapecada da Canção Nativa

                    I

Há um gurizito que chegou de fora,

que a mãe envolve num ponchito gris,

encarangado, treme o queixo e diz:

-Mãe, o gateado tá esperando a boia.

-Debulho um milho e já volto já,

antes que o dia se me vá embora.

                               II

Há um outro piá que levantou com os galos

e se enfurnou na cerração fechada.

Punhais de gelo, pés sentindo a geada,

procura vultos pra encontrar cavalos.

Enfrena, salta, se abraça ao pescoço

e se agasalha com o calor do baio.

                               III

Num fim de junho, de adoçar laranjas,

há que cruzar um gado no arroio.

De poncho fino que encharcou as franjas

e voz gelada pra gritar o aboio,

outro guri vem levantando um mouro

que nada, bufa e arregala o olho.

                              IV

O frio é um velho cruzador de campo,

o frio é um velho alambrador de mundo.

Cercou o tempo e o parou, profundo,

na nossa alma, onde neva tanto.

O Sul e o Frio, são hora e segundo

de algum ponteiro que perdeu o tranco.

                               V

Ficou marcado esse rigor antigo,

tocando o rosto e coração da gente

e por mais frio a alma será quente,

como a lembrança do melhor amigo.

Por onde eu ande, Velho Continente,

tua pele fria me dará abrigo.

 

 

Motivação

Desde muito cedo, nós, os habitantes do Sul, sentimos que o frio é uma presença constante nas nossas vidas. Aqui, mulheres e homens, de sua infância para o tempo afora, formam-se tocados por estes rigores: de andar, de lidar, de viver invernos. Assim, tantos e tantos momentos marcantes para nós e nossas vidas, são passados na presença, na companhia do frio. Por isso, para quem é daqui, de há muito ele deixou de ser aquele que agride, o que fere, para dser o que nos recorda, o que nos constrói, o que nos fortalece e une como gente de um lugar. La dentro de nós, marcado em um tempo onde os relógios não funcionam, está o frio como lembrança, abrigo e testemunho de uma existência. Uma memória viva, uma presença constante. Feito a lembrança do melhor amigo.

 

 

 

AUTOR(ES) DA LETRA:

Sérgio Carvalho Pereira
Rio Grande, RS

AUTOR(ES) DA MÚSICA:

Luciano Reis Fagundes
Sapucaia do Sul, RS
João Luiz Nolte Martins Joca Martins
Faxinal do Soturno, RS

FICHA DE PALCO


JOÃO MARCOS NEGRINHO MARTINS - VIOLÃO

PAULINHO GOULART - PIANO

JOCA MARTINS - INTERPRETE

JULIANA SPANEVELLO - INTERPRETE

JOÃO PAULO DECKERT - BANDONEON

CARLOS DE CESARO - BAIXO ACUSTICO

TIAGO RIBAS - VIOLINO